
Ainda são incipientes as discussões sobre cuidados paliativos na odontologia. E precisamos mudar isso, afinal, além de vivermos em um país que está envelhecendo, a odontologia deve estar intimamente integrada nos cuidados de pessoas que enfrentam doenças graves.
Assim é importante entender que cuidado paliativo é uma abordagem que tem por objetivo o alívio do sofrimento humano em qualquer condição em que aconteça. Então, como o profissional da odontologia pode ficar de fora dessa temática?
Os cuidados paliativos constitui-se em um complexo sistema de cuidados multidisciplinares e interdisciplinares.
Envolvem o manejo de questões biomédicas, psicológicas, sociais e espirituais para pessoas onde não existem mais recursos para frear uma doença (como o câncer) ou o final das forças vitais (como na pessoa idosa). Logo, eles não estão centrados em prolongar a vida ou adiar a morte e sim em estabelecer os cuidados necessários para que as pessoas sejam capazes de manter sua autonomia e independência nos momentos finais de sua existência neste plano.
Seus princípios e o conhecimentos que agrega podem e devem ser aplicado tanto de forma individual, diante de uma doença que ameaça à vida, quanto diante de uma população que sofre por risco de perda massiva de vidas.
Instrumentos utilizados pelos Cuidados Paliativos
O emprego precoce de suas ferramentas pode auxiliar profissionais em diferentes etapas do atendimento a pessoas portadoras da doença, independente de estarem ou não em situação de final de vida.
Vejam agora a situação relacionada à Covid-19, a família igualmente precisa ser acolhida uma vez que é duplamente afetada tanto pelo agravamento da condição de saúde do paciente, mas também porque segue com sentimento de medo e angústia de novos casos no núcleo familiar.
Entre os instrumentos mais utilizados pelos Cuidados Paliativos, e que agora parecem ser bem úteis no momento que vivemos, estão:
- Comunicação adequada com o objetivo de ajudar a humanizar o processo em todas as etapas;
- Avaliação do paciente com objetivo de auxiliar em decisões sobre oportunidade de suporte avançado de vida;
- Métodos eficientes para o controle de sintomas em todas as etapas;
- Atenção a familiares, auxiliando na compreensão do processo de adoecimento, diminuindo o impacto sobre o sofrimento associado à perda de pessoa querida.
Dentro desse contexto sabe-se da importância do profissional de Odontologia junto as equipes de Unidade de Terapia Intesiva. Por isso, este profissional deve preparar-se para agir diretamente com o paciente, e vai fazer parte cada vez mais, da sua vivência.
O profissional de odontologia nos cuidados paliativos irá focar no alívio da dor, da higiene bucal digna, na melhoria de outros sintomas físicos, além de fornecer amparo psicológico através da sua humanização e empatia.
É imprescindível que o cirurgião-dentista tenha consciência clara sobre a importância do seu trabalho para a devolução da dignidade nos últimos momentos de vida de alguém.
Níveis de cuidados paliativos que você precisa saber.
Segundo Ana Cláudia Quintanda Arantes, em entrevista para o CONASS, médica e sócia-fundadora e vice-presidente da Associação Casa do Cuidar, Prática e Ensino em Cuidados Paliativos, há quatro níveis de cuidados paliativos que os profissionais da sáude precisam reconhecer:
- Sofrimento físico
- Sofrimento emocional
- Sofrimento social
- Sofrimento espiritual
Para a pesquisadora, nós como profissionais da saúde, em relação às dimensões do sofrimento físico, temos condições de oferecer alívio através do controle da dor e do desconforto. A odontologia portanto se insere nesse cuidados paliativos, e fica fácil a compreensão deste processo.
Agora, é preciso ampliar nossa visão, pois para as outras dimessões, a odontologia também precisa sentir-se inserida.
Na dimensão emocional, temos o medo, a angústia, o sentimento de culpa, arrependimentos, todos esses sentimentos que vêm à tona quando o paciente se dá conta de que sua vida está terminando. Já a dimensão familiar, evidentemente pelo fato de que não se fica doente sozinho, a nossa família sofre junto e muitas vezes a impressão é que a família sofre mais que o próprio paciente, especialmente quando estamos falando de pediatria.
O sofrimento social vem com as perdas de papéis sociais, todas as dificuldades profissionais, os direitos que esse paciente tem e em geral não sabe.
A dimensão espiritual parece mais complexa, uma vez que, quando uma pessoa tem uma doença grave incurável que ameaça o tempo de sua vida, uma das perguntas que ficam a ser respondidas é: qual o sentido da minha vida? Por que isso está acontecendo comigo?
É justamente o sofrimento espiritual o mais complexo que podemos enfrentar no final da vida.
