As doenças periodontais possuem etiologia multifatorial. A reação imunoinflamatória a resença de um biofilme disbiótico constitui-se no fator etiológico primário.
Entretanto, as manifestações clínicas e gravidade das lesões periodontais são determinadas pela composição bacteriana deste biofilme, fatores ambientais relacionados ao hospedeiro, bem como suas condições sistêmicas. mecanismo de resposta imune desenvolvida pelo hospedeiro pode ser modulado por diversos fatores como o idade, tabagismo, Diabetes Mellitus, condições genéticas específicas, entre muitos outros.
A ciência vem buscando desvendar quais seriam então os marcadores que iniciam o processo de doença, numa tentativa de identificar fatores de risco importantes e atuar de forma preventiva com maior eficácia. Pensando nisso, já há algum tempo, levantou-se a hipótese de que talvez o tipo sanguíneo do indivíduo (sistema ABO) pudesse determinar grupos de maior suscetibilidade às doenças periodontais.
Mas, será que esta associação, de fato, existe?

E ao longo do tempo, muitos pesquisadores tentam relacionar a ocorrência de doenças bucais com os tipos sanguíneo existentes, buscando elucidar se determinado tipo sanguíneo poderia deixar o indivíduo mais suscetível ou mais resistentes ao desenvolvimento de doenças periodontais.
Compilando alguns dos principais achados de algumas pesquisas interessantes sobre o tema, cheguei a seguinte conclusão:
– Grande parte dos trabalhos foram feitos com indivíduos com periodontites de progressão rápida (anteriormente denominadas de periodontite agressiva) uma vez que, nestes casos, são observados uma incompatibilidade entre o acúmulo de biofilme e gravidade das lesões, além desses indivíduos não terem nenhuma comorbidade sistêmica que pudesse agir como fator de confundimento na análise da associação.
– Há muitos estudos com resultados controversos, uma vez que trazem formas de diagnóstico diferentes da periodontite, além de serem realizados em populações com características das mais diversas.
– O primeiro estudo desenvolvido por Pradhan et al em 1971 demonstrou que indivíduos com tipo sanguíneo O seriam mais suscetíveis à periodontite, comparado aos outros tipos sanguíneos. Vários outros estudos, mais recentes, demonstraram esse mesmo resultado (Bashiwari et al 2001; Demir et al 2007; Koregol et al 2010; Kundu et al 2014; Vivek et al 2013);
– Outro estudo de Pai et al (2012) demonstrou que indivíduos com tipo sanguíneo O são mais suscetíveis a gengivite, enquanto os do tipo B são mais suscetíveis à periodontite. Resultados semelhantes foram encontrados nos estudos de Gautam et al (2017);
– Poucas pesquisas apontam que o tipo sanguíneo A parece exercer um fator de proteção contra as doenças periodontais (Gawrzewska et al 1975).
– Não foram encontradas diferenças estatisticamente significantes nos estudos referentes ao fator RH- e RH+ quanto a presença de doenças periodontais, demonstrando não existir esta relação.
Entretanto, apesar de alguns estudo apontarem para uma relação entre tipo sanguíneo O e periodontite, não podemos afirmar, sobremaneira, que essa relação já existe.
Há um caminho longo a se percorrer até esta comprovação.
Um fato importante a ser sempre analisado diz respeito à fragilidade metodológica de alguns estudos, e uma leitura crítica e científica deve ser sempre levada em consideração.
Um recente artigo publicado no Quintessenz Journal (Al-Askar et al. Oral H The Relationship Between Periodontal Disease and ABO Blood Groups: A Cross-Sectional Studyealth Prev Dent 2021) trouxe reflexões bem importantes sobre esta associação
Observe comigo os principais achados discutidos pelos autores:
– Foram avaliados 416 indivíduos, ambos os sexos, sendo a maioria mulheres (223) e com idade variando de 20 a 65 anos.
– O exame periodontal realizado incluiu índice de placa, sangramento à sondagem, nível de inserção clínica e perda óssea interproximal.
– Os padrões de grupo sanguíneo ABO foram determinados com base em autorrelatos, confirmados por prontuários médicos.
– Dos 416 indivíduos, 52,2% eram do grupo sanguíneo O, enquanto 27,8% eram do grupo sanguíneo A. 46,8% dos pacientes com grupo sanguíneo O tinham gengivite e 49,6% tinham periodontite. 31,2% dos pacientes com grupo sanguíneo A tinham gengivite, enquanto 29,5% tinham periodontite. O grupo sanguíneo com menor percentual entre os pacientes com gengivite foi o AB, com índice de 6,2%; neste grupo sanguíneo, 8,1% tinham periodontite.
– A frequência dos grupos ABO muda de acordo com etnia do indivíduo.
Atualmente, a distribuição mundial é mais ou menos a seguinte:
Brancos → 44% são O, 43% são A, 9% são B e 4% são AB.
Negros → 49% são O, 27% são A, 20% são B e 4% são AB.
Asiáticos → 43% são O, 27% são A, 25% são B e 5% são AB.
O mesmo pode ser observado na periodontite. Levando em consideração as diferentes raças sua prevalência também pode variar. Entretanto, condições socioeconômicas devem ser sempre analisadas, uma vez que em muitos países há distinção social entre grupos étnicos diferentes, e que impacta diretamente nas condições de saúde e qualidade de vida.
– Os autores não encontraram associação entre a variação dos grupos sanguíneo e a prevalência das doenças periodontais.
Assim, podemos afirmar a grande necessidade de estudos que incluam um número maior de indivíduos, principalmente no que diz respeito ao grupo de comparação, ou seja, com saúde periodontal, para que análises mais precisas possam ser observadas. Além disso, faz-se importante considerar uma maior distribuição geográfica, com diferentes etnias e variabilidade da população a ser estudada.

